Coluna destinada a comentar as opiniões emitidas pelo órgão responsável pela chegada de informações ao público aficionado pelo futebol: a imprensa esportiva. Afinal, bem ou mal, é através dela que tomamos conhecimento de (quase) tudo o que cerca o mundo da bola.
A autópsia de Dunga.
Há alguns dias, o jornalista Paulo Vinícius Coelho da ESPN Brasil disse que a tentativa da Globo de conseguir entrevistas exclusivas com jogadores da Seleção era a falência do jornalismo esportivo brasileiro.
Não concordo. Essa falência está no eterno amadorismo da classe. Está no transporte do papo de botequim para os estúdios de TV e colunas de jornal. Uma falência ainda mais escancarada com a eliminação da Seleção Brasileira desta Copa do Mundo.
Como escrevi abaixo, sabia que Dunga e seus comandados seriam massacrados. Não era difícil prever a repetição de algo que sempre acontece após qualquer derrota significativa do Brasil.
Mas não imaginava que o nível da crítica seria tão baixo. Em determinadas coberturas, houve requintes de crueldade e, claro, de oportunismo. No Sportv, por exemplo, a crônica sobre a eliminação foi permeada pelas falas de Dunga na discussão com Alex Escobar. O recado estava dado.
No Linha de Passe, Juca Kfouri ironizou Dunga dizendo que seu discurso nos vestiários após o bom primeiro tempo brasileiro foi um pedido para que o time parasse de jogar bem porque aquele não era o futebol daquele time. Puro escárnio.
E o mesmo aconteceu em maior ou menor escala em sites, blogs e outros programas. Quem buscava uma análise mais fria e técnica dizendo, por exemplo, que o time levou um gol casual e não conseguiu se reencontrar em campo, ficou só na expectativa. Acho que era esperar muito.
Às vezes, as pessoas se esquecem que futebol é só um jogo e que Copa do Mundo é conquistada em partidas eliminatórias em que o imponderável está mais presente do que nunca. Bobagem tentar provar a existência de Deus – ou do Diabo – em noventa minutos. É bem mais fácil tentar entender o esporte.
Uma pesquisa mostrou que Dunga tinha 69% de aprovação antes da partida contra a Holanda. Agora não deve ter 5%. A avaliação de quatro anos de trabalho mudou em apenas 45 minutos. É óbvio que o técnico cometeu erros durante a preparação, mas, pelo menos, errou com a sua própria cabeça.
Agora, lamentável foi ver quantas opiniões se modificaram de uma hora para outra dentro de uma classe que teoricamente deveria ser neutra, mas que em diversos momentos se mostra tão míope e obtusa quanto às velhas crônicas de Nelson Rodrigues. Infelizmente, algumas coisas nunca mudam.
Acabou. Ao ouvir o apito final de Holanda 2x1 Brasil, tive a certeza de que Dunga e seus convocados seriam execrados nos próximos dias. Todas as críticas que estavam engavetadas ou abafadas pelos resultados positivos voltarão à tona com força total.
Chegou o momento de se falar em Ronaldinho, Ganso ou qualquer outro que ficou de fora. De dizer que Felipe Melo era um desequilibrado e que poderia ser expulso, mesmo depois de torcer por sua volta durante a lesão superada pelo volante. São as conclusões do pós-resultado.
Aliás, não gostaria de estar na pele de Felipe Melo. É óbvio que ele será tachado como um dos responsáveis pela eliminação do Brasil. Duvido muito se um dia o veremos novamente vestindo a camisa da Seleção Brasileira.
Agora, mais do que nunca, o técnico Dunga estará sozinho. Como se previu, o caminho escolhido evidenciava que uma derrota significaria morrer abraçado aos seus conceitos. Os 23 jogadores que ele levou para a África do Sul eram de sua inteira confiança. Era sua filosofia que entrava em campo. E que saiu derrotada.
Filosofia esta que provavelmente será revista. O discurso “guerreiro” deverá dar lugar ao resgate de um futebol mais solto, mais brasileiro. O fato de a próxima Copa ser no Brasil deverá apontar para este caminho. E, Leonardo, nome mais cotado para assumir o cargo, tem exatamente essa mentalidade mais arejada. Além, é claro, de um melhor relacionamento com o público.
Mas, nem tudo é tristeza. Pelo menos é o que indicam os foguetes que ouvi há pouco por aqui. Talvez seja alguma colônia holandesa incrustada nas montanhas mineiras ou simplesmente pessoas que torcem contra a Seleção.
Como acredito mais na segunda hipótese, imagino que este também é o momento de regozijo dos chamados “estrangeirinhos”. Aqueles que não torcem por outro selecionado e tem como único prazer numa Copa torcer contra o Brasil e se deliciar com o lamento das pessoas.
É um tipo de prazer doentio que eu nunca entenderei. Afinal, eles não sentirão felicidade verdadeira quando a Copa for erguida por outro capitão. Para estes, por não terem mais contra quem torcer, o Mundial também perdeu um pouco de sua graça.
EFE
Felipe Melo: Eleito o símbolo da desclassificação brasileira.
A FIFA recebeu a senha para introduzir a tecnologia no auxílio da arbitragem no exato momento em que se constatou a ajeitada mão de Henry no gol que deu à França a classificação sobre a Irlanda. Era chance de se tomar providências antes que algo semelhante acontecesse na África do Sul. Além disso, a revolta era tamanha, que as poucas vozes contrárias a qualquer medida teriam que se curvado às evidências.
Todavia, ancorado ao velho discurso de João Havelange que sempre disse que a força do futebol está no erro do árbitro, Joseph Blatter preferiu ignorar os apelos de todas as partes e permanecer no erro.
Infelizmente, o castigo para tal omissão veio na forma de equívocos terríveis em plena Copa. Depois de um gol norte-americano invalidado de maneira inexplicável e do tento de Luís Fabiano com ajuda do braço, os prejudicados foram Inglaterra e México em plenas oitavas-de-final. Blatter ainda pediu desculpas a ingleses e mexicanos, mas o estrago já estava feito.
Deste modo, só restou à entidade reabrir as discussões acerca do tema. O que, diga-se, era o mínimo a se fazer neste momento. Fala-se na retomada do chip que alerta se a bola ultrapassou a linha do gol, mas até isso esbarra na recusa da Adidas em fornecer sua tecnologia para a concorrência. Algo justo, uma vez que os gastos com o desenvolvimento da mesma foram da fornecedora alemã.
Bem mais fácil do que isso seria permitir a utilização das imagens da TV pelo quarto árbitro ou mesmo designar um quinto árbitro para a tarefa. Para que não se quebre a dinâmica do jogo, seria ideal que tal recurso só fosse utilizado em lances polêmicos de gol, penalidade máxima ou agressão fora do lance. O argumento de que isso atrasaria as decisões da arbitragem perde a força quando lembramos quanto tempo é perdido em reclamações exatamente nesse tipo de lance.
Logicamente, campeonatos de divisões menores não teriam como dispor de câmeras espalhadas pelos estádios. Mas, nas grandes competições – que são exatamente aquelas que provocam maiores discussões – isso seria perfeitamente possível.
O caminho para mudança está aberto. Resta saber se há o real interesse da entidade máxima nesse assunto. Enquanto isso, fica a torcida para que nenhum equívoco semelhante prejudique as seleções sobreviventes até o fim desta Copa.
Neuer observa a bola ultrapassando a linha. Era o gol que a Inglaterra sonhava.
Aquele lance ou momento que você, por um motivo ou outro, nunca esqueceu.
Brasil 3x2 Holanda
Para muitos, Brasil e Holanda fizeram – ao lado de Argentina e Romênia – a melhor partida do Mundial de 1994. Assim como agora, a maior expectativa era sobre o duelo entre o lateral esquerdo brasileiro contra o ponta-direita holandês.
O veloz Overmars daria um baile no veterano Branco, diziam. Não foi isso o que se viu. À parte o lance em que o camisa 6 dá um tapa do rosto do jogador do Ajax e sofre falta em seguida, é possível dizer que o confronto foi muito equilibrado. Em diversos momentos, era Branco quem subia ao ataque e tinha Overmars em seu encalço.
Logicamente, o momento inesquecível daquele jogo é o gol do próprio Branco, numa cobrança de falta magistral em que a bola passou a centímetros das costas de Romário.
Dezesseis anos depois, Robben, a grande arma da Holanda, é o ponta-direita de sua Seleção. Coincidentemente, seu principal marcador será Michel Bastos, justamente o jogador considerado o ponto fraco da defesa verde-amarela.
Vale lembrar que o winger do Lyon é um dos cobradores de infrações do time de Dunga. Quem sabe a história não se repete?
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Dizem que a campanha da Nike “Write the Future” se tornou uma maldição nesta Copa. Todos os astros da versão original se deram mal na África do Sul: Ronaldinho nem convocado foi. Drogba, Cannavaro, Ribery, Rooney já se despediram e agora Cristiano Ronaldo se juntou a essa lista.
Para a sorte dessa turma, suas contas bancárias milionárias não permitirão que eles acabem morando num trailer velho em algum subúrbio como o vídeo abaixo sugere para o atacante inglês...
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Confirmando o retrospecto amplamente favorável, o Brasil fez 3 a 0 no Chile numa partida até mais tranquila do que se imaginava. Como previsto, o time comandado pelo Marcelo Bielsa não se trancou e concedeu os espaços tão apreciados pelo ataque verde-amarelo.
A entrada de Ramires na vaga do lesionado Felipe Melo deu ao meio-campo brasileiro uma leveza ainda não mostrada neste Mundial. Até Gilberto Silva parecia mais à vontade em campo. Infelizmente, o cartão amarelo do benfiquista deverá promover o retorno do bianconero ao onze inicial.
Outro ponto negativo de hoje fica por conta do posicionamento de Daniel Alves no meio-campo. Escalado a princípio como vértice direito de um meio-campo em losango, o ala do Barcelona afunilou demais em algumas jogadas, o que deixou um verdadeiro rombo do seu lado. Inclusive, o lance do cartão amarelo recebido por Kaká aconteceu porque o camisa 10 precisou correr para fechar o espaço e acabou chegando atrasado. Se Elano não retornar, Dunga terá trabalho por ali.
Agora, mais uma vez, o adversário será a Holanda. Essa sim, a verdadeira Laranja Mecânica. Explico: Enquanto as versões anteriores se mostravam extremamente ofensivas e fluídas em campo, esta Holanda é pragmática ao extremo. Se posta bem na defesa, ataca de maneira cirúrgica e procura evitar sustos. Não por acaso, uma filosofia bem parecida com a do Brasil. O que não deixa de ser curioso, visto que são duas escolas eternamente reféns do futebol espetáculo, mas que mandaram esse conceito para o espaço em busca de competitividade.
Não me arrisco a apontar o Brasil como favorito no próximo confronto. A Holanda vem com a qualidade de sempre, mas está diferente. Está mais firme, com um meio-campo protegendo uma defesa apenas mediana e que recua ao campo de defesa sem nenhum preconceito. Promessa de jogo duro em Port Elizabeth.
AFP
Brasil 3x0 Chile: Robinho e Luís Fabiano deixaram suas marcas.
Sei que o assunto de hoje é arbitragem e como os equívocos cometidos condicionaram os resultados de Alemanha 4x1 Inglaterra e Argentina 3x1 México. No entanto, como a FIFA declara abertamente que os erros fazem parte da magia do futebol (tese com a qual não concordo) e nem cogita inserir a tecnologia como recurso em lances duvidosos, melhor comentar sobre os rumos dos selecionados derrotados neste domingo.
Certamente, ingleses e mexicanos seguirão reclamando da arbitragem por um bom tempo, porém, penso que os britânicos, ao contrário dos norte-americanos, têm coisas bem mais importantes para se preocuparem.
Campeã mundial sub-17 em 2005, a jovem geração mexicana acaba de ser devidamente apresentada ao futebol adulto e promete dar bons frutos num futuro próximo. Embora seja arriscado dizer até onde irão nomes como Giovani dos Santos (21), Carlos Vela (21), Javier Hernández (22) e Pablo Barrera (23), tudo leva a crer que o próximo salto de qualidade da seleção que quase sempre esbarra na barreira das oitavas-de-final está prestes a acontecer.
Por sua vez, o cenário não parece ser dos melhores para os ingleses. Há uma evidente crise técnica, tática e mental instalada. Embora a maior parte dos atletas convocados por Fabio Capello desempenhe papel fundamental em seus times, o futebol produzido pelos mesmos não é compatível com o status que ocupam.
É difícil precisar exatamente o que acontece, mas o que mais salta aos olhos é a dificuldade que o time inglês apresenta para concatenar jogadas. Quem diz que o futebol alemão é mecânico, deveria reparar nas atuações do English Team. É tudo tão óbvio, tão repetitivo, tão previsível, que chega a incomodar.
Em determinado momento do primeiro tempo, ainda com 2 a 0 no placar, a partida estava moralmente liquidada. Os alemães se postaram no meio campo e deixaram os ingleses esticando bolas de forma inócua da defesa para o ataque. Foi um momento constrangedor. Ainda mais quando se observa que o rival do outro lado não era um time tão experiente quanto sua camisa poderia induzir.
Culpar a invasão estrangeira na Premier League por essas deficiências seria um equívoco enorme. Além de agregarem qualidade ao campeonato, os estrangeiros trouxeram para Terra da Rainha um jeito novo de atuar que transformou as maiores equipes do país em gigantes europeus. O ideal é fazer com que a próxima geração beba dessa fonte e abandone de vez o mais que ultrapassado kick and rush. Que aproveitem a oportunidade para aprender uma nova filosofia de jogo. Algo que, apesar das vozes em contrário, a atual geração não soube fazer.
Getty Images
Desolados, ingleses têm um longo caminho a percorrer.